quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Há 20 anos, Nelson Mandela deixava prisão para enterrar racismo

Em 11 de fevereiro de 1990, Mandela, acompanhado por Winnie, sua esposa na época, deixa a prisão Victor Verster onde permaneceu por 27 anos acusado de terrorismo pelo governo sul-africano Mais

Há 20 anos, Nelson Mandela deixava prisão para enterrar racismo institucional na África do Sul

Do UOL Notícias
Em São Paulo
Há 20 anos, "Nelson" Rolihlahla Mandela deixou a prisão Victor Verster caminhando, ao lado de Winie Madikizela, sua esposa na época. Livre em 1990, aos 72 anos, ele havia passado os últimos 27 atrás das grades por ousar a se opor ao regime racista que dominava a África do Sul. Um mar de pessoas o aguardava nas ruas para dar início finalmente à edificação da democracia sul-africana.
Mandela é filho do conselheiro do chefe máximo do vilarejo de Qunu (atual província do Cabo Oriental), onde nasceu. Aos sete anos, tornou-se o primeiro membro da família a frequentar a escola, onde lhe foi dado o nome inglês "Nelson". Aos 16 anos, seguiu para o Instituto Clarkebury, na África do Sul, onde estudou cultura ocidental.

  • AFP
    Durante as eleiçãos do país em 1999, Mandela participou de diversos comícios ao lado de seu sucessor, Thabo Mbeki, sempre ovacionado pela população sul-africana
Militância
Ao final do primeiro ano do curso de Direito na Universidade de Fort Hare, Mandela se envolveu com o movimento estudantil, num boicote contra as políticas universitárias e foi expulso da universidade. Ali iniciou sua militância.
A partir de então se envolveu na oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros (maioria da população), mestiços e indianos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos. Uniu-se ao Congresso Nacional Africano em 1942, e dois anos depois fundou com Walter Sisulu e Oliver Tambou (um de seus melhores amigos), entre outros, a Liga Jovem do CNA.
Depois da eleição de 1948 dar a vitória aos afrikaners (Partido Nacional), que apoiavam a política de segregação racial, Mandela tornou-se mais ativo no CNA, tomando parte do Congresso do Povo (1955) que divulgou a Carta da Liberdade - documento contendo um programa fundamental para a causa anti-apartheid.
Comprometido de início apenas com atos não-violentos, Mandela e seus colegas aceitaram recorrer às armas após o massacre de Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana atirou em manifestantes negros, matando 69 pessoas e ferindo 180. Em 1961 fundou a ala armada do CNA - Umkhonto we Sizwe (a Lança da Nação) para combater a discriminação do apartheid.

20 anos depois, a África do Sul ainda luta

Vinte anos depois da libertação de Nelson Mandela, a África do Sul é uma democracia vibrante, mas ainda tem milhões de pessoas vivendo na pobreza e buscando uma liderança capaz de confrontar os problemas econômicos. A libertação de Mandela em 11 de fevereiro de 1990, após 27 anos nas prisões do apartheid, colocou em marcha uma transformação política que culminou com a história eleição multirracial de 1994 e com a posse do próprio Mandela como primeiro presidente negro do país. Alguns críticos dizem que o legado de Mandela foi destruído por causa de incidentes como o afastamento do sucessor dele, Thabo Mbeki, do comando do partido CNA e do recente escândalo sexual envolvendo o atual presidente do país, Jacob Zuma.
Prisão
Acusado de crimes capitais no julgamento de Rivonia, em 1963, a declaração que deu, no banco dos réus, foi sua afirmação de posição política: "Tenho defendido o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer". Em 1964 Mandela foi condenado à prisão perpétua.

No decorrer dos 27 anos que ficou preso, Mandela se tornou de tal modo associado à oposição ao apartheid que o clamor "Libertem Nelson Mandela" se tornou o lema das campanhas anti-apartheid em vários países.
Durante os anos 1970, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de não incentivar a luta armada. Mandela continuou na prisão até fevereiro de 1990, quando foi libertado em 11 de fevereiro pelo presidente Frederik Willem de Klerk, que também revogou a proibição do CNA e de outros movimentos de libertação.

Como presidente do CNA (de julho de 1991 a dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de maio de 1994 a junho de 1999), Mandela comandou a transição do regime racista, o apartheid, ganhando respeito internacional.
Em 1999, Mandela conseguiu eleger o sucessor, Thabo Mbeki, que posteriormente foi obrigado a deixar a Presidência depois de uma manobra política do seu maior rival dentro do CNA, Jacob Zuma.
Casamentos, separações e aposentadoria
Mandela casou-se três vezes. A primeira esposa de Mandela foi Evelyn Ntoko Mase, de quem se divorciou em 1957 após 13 anos de casamento. Depois casou-se com Winie Madikizela, e com ela ficou 38 anos, divorciando-se em 1996, com as divergências políticas entre o casal vindo a público. No seu 80º aniversário, Mandela casou-se com Graça Machel, viúva de Samora Machel, antigo presidente moçambicano.

Depois de deixar a presidência, Mandela passou a dedicar suas forças ao combate à crise da Aids na África do Sul, levantando milhões de dólares para combater a doença. Seu uníco filho morreu vítima da doença em 2005.
Ainda fora da Presidência, Mandela ganhou uma série de títulos e homenagens, como a Ordem de St. John, da rainha da Inglaterra, Elizabeth 2ª., a medalha presidencial da Liberdade, do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o Bharat Ratna (a distinção mais alta da Índia), a Ordem do Canadá, dentre outros. Apesar de ter ganho a condecoração de Bush, Mandela realizou uma série de pronunciamentos, em 2003, em que atacava a política externa do presidente americano.
Em junho de 2004, aos 85 anos, Mandela anunciou que se retiraria da vida pública. Mas a militância continuou. Em 2007, comemorou o 89° aniversário criando um grupo internacional de estadistas idosos e altamente respeitados, incluindo seus colegas Prêmios Nobel da Paz Desmond Tutu e o ex-presidente americano Jimmy Carter, para combater problemas mundiais que incluem as mudanças climáticas, o combate à Aids e à pobreza. A comemoração de seu aniversário de 90 anos foi um ato público com shows, que ocorreu em Londres, em julho de 2008, e contou com a presença de artistas e celebridades engajadas nessas lutas.
Em 2009, com aparência frágil, o ex-presidente sul-africano compareceu a um comício eleitoral do CNA para ajudar a eleger Jacob Zuma, atual presidente do país.

Sugestão de livros: Nelson Mandela

Mandela: Retrato Autorizado (Mac Maharaj) Mais recente biografia realmente autorizada de Nelson Mandela. Com prefácio de Kofi Annan, ex-secretário geral da ONU, e introdução do arcebispo anglicano emérito da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, o livro conta com 60 entrevistados em todo o mundo. São, portanto, 60 pontos de vista diferentes sobre Mandela, além de destacar as mais variadas facetas do ex-presidente. O livro possui uma coletânea de imagens raras e algumas inéditas.
Nelson Mandela: Uma Lição de Vida (Jack Lang) Em cinco capítulos, o ex-ministro da cultura da França, retrata a vida de Mandela. O livro, contudo, revela também as contradições do próprio Mandela, na forma de um drama em cinco atos: no primeiro ele é o irmão africano de Antígona; consciente de um dia ter de infringir a lei do Estado em nome de um dever superior; no segundo é Espártaco, o escravo que lidera uma rebelião contra os poderosos; no terceiro é Prometeu, acorrentado pelo racismo; no quarto ato é Próspero de "A tempestade" de Shakespeare,o benfeitor da humanidade, e finalmente no quinto é o Rei Nelson, o sábio soberano. O prefácio é assinado pela escritora sul-africana, Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura e ativista pelos direitos humanos.
Conquistando o Inimigo (John Carlin) O livro narra o um episódio específico: a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995. As eleições do ano anterior tinham criado uma nova África do Sul, mas restava o desafio de criar os sul-africanos. Em busca de uma causa capaz de unir brancos e negros, Mandela concordou em sediar a Copa do Mundo de Rúgbi. A escolha desse esporte parecia absurda. Por décadas, o rúgbi fora um símbolo do apartheid. Dessa forma, mais improvável que ganhar a Copa era o Springboks - o time nacional - conquistar o coração dos negros. Mandela precisava que o povo acreditasse no slogan "um time, um país". Ele teve de fazer os negros verem os jogadores como "nossos rapazes" e assegurar aos brancos que eles tinham um lugar de direito na nova nação. Para isso, mostrou-se um líder carismático e flexível, capaz de conter seus aliados e seduzir seus adversários.
Meus Contos Africanos (Nelson Mandela) Do berço da humanidade surge o caleidoscópio de um livro que refrata a África em sua miríade de facetas e cores - o brilho ofuscante do quente sol africano, o tom azul das montanhas no horizonte, o repouso misericordioso oferecido pela água e pela mata, os estratagemas e a malícia das criaturas, tanto animais como humanas, que povoam esse vasto continente selvagem, e sua generosidade humana, seus grandes corações e seu riso sempre presente. Aqui são encontrados contos tão antigos quanto a África, contados ao redor de fogueiras no final do dia desde tempos imemoráveis, contos herdados dos povos san e khoi, originalmente caçadores e criadores de animais pioneiros, deixados à imaginação daqueles que vieram do mar em grandes embarcações de velas ondeantes.
Nelson Mandela: A Luta é Minha Vida (Nelson Mandela) A obra reconstrói os lentos passos em direção à luta contra o apartheid na África do Sul. Foram reunidos os documentos mais relevantes do Congresso Nacional do país durante 40 anos de pressão contra a política branca. Por meio deles, mostra-se o papel fundamental que Mandela desempenhou contra o apartheid.

Sugestões de filmes

Mandela: Luta pela liberdade (Billie August) A história narra o período em que Mandela ficou preso, contada através das memórias de um guarda racista da prisão que teve sua vida completamente alterada pela convivência com Mandela.
Invictus (Clint Eastwood) O filme, inspirado no livro de John Carlin, mostra Nelson Mandela, depois da queda do apartheid na África do Sul e durante seu primeiro mandato como presidente, quando se esforçou para que o país sediasse Copa do Mundo de Rugbi de 1995. Uma grande oportunidade para unir seus compatriotas. Foi lançado oficialmente nos cinemas americanos no dia 11 de Dezembro de 2009 e está em cartaz no Brasil.

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