quinta-feira, 1 de maio de 2008

Maio de 68 foi auge da década em que jovens "aceleraram" a história

30/04/2008 - 15h54

Maio de 68 foi auge da década em que jovens "aceleraram" a história

ÉBANO PIACENTINI
Colaboração para a Folha Online

O mês de maio de 1968 representou o auge de um momento histórico de intensas transformações políticas, culturais e comportamentais que marcaram a segunda metade do século 20.

Em Maio de 68, a partir de manifestações estudantis ocorridas nas universidades francesas de Nanterre e Sorbonne, irromperam sucessivos movimentos de protestos em diversas universidades de países da Europa e das Américas, que ganharam uma dimensão ainda maior com a ampliação das revoltas para a classe trabalhadora.

06.mai.1968 - Guy Kopelowicz/AP
Rapaz atira pedra na polícia durante protesto estudantil em Paris (França), em maio de 1968
Rapaz atira pedra na polícia durante protesto estudantil em Paris (França), em maio de 1968

Veja a cronologia ilustrada dos protestos na Europa

Veja a cronologia ilustrada dos protestos nas Américas

Entretanto, o mês histórico não pode ser compreendido sem levar em conta os fatos que eclodiram no mundo nos anos 60, uma década de mudanças na história do ocidente.

Claude-Jean Bertrand, professor do instituto francês de imprensa, escreve no artigo "Um novo nascimento na França" que em seu país, como em outros do mundo, o ano de 1968 marcou o "início do fim" do mundo pós-guerra.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os Estados Unidos emergiram como potência mundial e, ajudando na reconstrução da devastada Europa, passaram a difundir as novidades e os valores da nova sociedade que surgia.

Após a próspera década de 1950, a partir de protestos estudantis, mudanças políticas e comportamentais, o Ocidente entra nos anos 60 em um momento de "aceleração da história".

Educação e estudantes

O historiador Eric Hobsbawm afirma, no livro "Era dos Extremos", que "a Idade Média acabou de repente" em meados da década de 1950. Para ele, o crescimento repentino dos números da educação, especialmente do ensino superior, são um dos motivos que explica as mudanças da década.

"No fim da Segunda Guerra, havia menos de 100 mil estudantes na França. Em 1960 eram mais de 200 mil e, nos dez anos seguintes, esse número triplicou para 651 mil", escreve.

mai.1968 - Reprodução
Filósofo Herbert Marcuse durante aula na Universidade Livre de Berlim (Alemanha)
Filósofo Herbert Marcuse durante aula na Universidade Livre de Berlim (Alemanha)

Para o historiador a conseqüência mais imediata foi uma "inevitável tensão entre essa massa de estudantes (...) despejadas nas universidades e instituições que não estavam" de nenhuma forma, "preparadas para tal influxo".

Freqüentemente associa-se aos anos 60 termos como "subversão", "revolução continuada" e "sociedade do espetáculo", mas sobretudo com "rebeliões estudantis". "Não surpreende que a década de 60 tenha se tornado a década da agitação estudantil", escreve o historiador.

Curiosamente, não era uma época de escassez material, e talvez por isso mesmo os universitários acharam que tudo poderia ser diferente. Para Hobsbawm, eles "podiam pedir mais" da nova sociedade que tinham imaginado.

Embalados pelas novidades dos jovens, os trabalhadores aproveitaram o momento de mudanças para colocar em pauta suas reivindicações.

"O efeito mais imediato da rebelião estudantil foi uma onda de greves operárias por maiores salários e melhores condições de trabalho", diz o professor.

Rebeliões pelo mundo

As rebeliões dos anos 60, embora pareçam um conjunto se olhadas em perspectiva, tiveram motivações diversas nos diversos países em que se manifestaram.

Divulgação
Cena do filme "Acossado", de Godard; ao fundo se lê: "viver perigosamente...até o fim"
Cena do filme "Acossado", de Godard; ao fundo se lê: "viver perigosamente...até o fim"

Na França, protestos eclodiram nas universidades em Maio de 68 contra a rigidez do sistema educacional. Na verdade, estes foram parte de uma expressão mais ampla de contracultura dos anos 60, que contestou valores morais julgados "incompatíveis" com os novos tempos.

Entre os símbolos das transformações tecnológicas, sociais e comportamentais na França estavam o automóvel --pessoas eram atropeladas nas ruas por não conseguirem calcular a velocidade dos carros--; a minissaia e a calça jeans --que representavam a emancipação feminina e a modernidade; a valorização das crianças --que até então "não existiam", pois não havia a compreensão da infância, e elas eram tratadas como "adultos em miniatura".

Veja matéria sobre Maio de 68 na França

Nas artes, o cinema da nouvelle vague de François Truffaut e Jean-Luc Godard buscava expressar na tela as transformações, em filmes como "Acossado" e "Os Incompreendidos".

Brasil

No Brasil, que também viveu grandes transformações nas artes -- com o Cinema Novo, a Tropicália, e peças de teatro como "Roda Viva" e "O Rei da Vela"-- as rebeliões da década de 60 foram mais ligadas a questões políticas, em virtude do golpe militar (1964-1989).

26.jun.1968 - Folha Imagem
"Passeata dos Cem Mil", organizada pela União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro.
"Passeata dos Cem Mil", organizada pela União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro

O auge das rebeliões ocorreu com a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em 26 de junho, quando foi realizado o mais importante protesto contra a ditadura militar até então.

A manifestação, iniciada a partir de um ato político na Cinelândia, pretendia cobrar uma atitude do governo frente aos problemas estudantis e, ao mesmo tempo, refletia o descontentamento crescente com o governo militar. Dela, participaram também intelectuais, artistas, padres e um grande número de mães.

Nos Estados Unidos, movimentos civis de minorias --negros e mulheres-- eclodiram ao mesmo tempo em que John F. Kennedy (1961-1963) assumia a Presidência com um discurso considerado bastante progressista.

Os fatos mais marcantes em 1968 nos EUA foram o assassinado, em 4 de abril, do líder negro Martin Luther King, e o protesto de cerca de 60 mil manifestantes no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da guerra do Vietnã, em 28 de abril.

Europa

As manifestações também foram intensas em outros países da Europa Ocidental, e também no Leste Europeu. Na Espanha, Alemanha Ocidental e Bélgica, universidades foram ocupadas e estudantes entraram em confronto com a polícia.

CTK
Moradores de Praga cercam de tanques soviéticos, em 21 de agosto de 1968
Moradores de Praga cercam de tanques soviéticos, em 21 de agosto de 1968

Em 1º de março, na Itália, cerca de 3.000 estudantes tomam a sede em Milão do jornal "Corriere della Serra" e em 5 de dezembro cerca de 1 milhão de trabalhadores entram em greve. No Reino Unido, 3 milhões de trabalhadores entram em greve em 15 de março.

Na Tchecoslováquia, em 5 de abril, é lançado no país o programa de reformas políticas conhecido como "Primavera de Praga", que pretendeu "humanizar" o Partido Comunista, o que desagradou a ex-União Soviética (URSS) do [ex-ditador] Josef Stálin. Em 6 de novembro os estudantes queimam a bandeiras da ex-União Soviética nas ruas de Bratislava.

Leia mais sobre a Primavera de Praga na Tchecoslováquia

Na Polônia, em 8 de março, estudantes protestam contra o regime socialista. Três dias depois a universidade de Varsóvia foi fechada.

América Latina

AP
Tommie Smith (ouro) e John Carlos (bronze) protestam no pódio da Olimpíada de 1968
Atletas Tommie Smith e John Carlos protestam no pódio da Olimpíada

Na América Latina, os confrontos também são motivados por questões ligadas à educação, e por conta das ditaduras militares.

No México, confrontos em universidades e nas ruas da cidade do México deixam 38 mortos. O governo, que se organizava para receber os Jogos Olímpicos em 12 de outubro, ordenou que as autoridades disparassem contra os manifestantes na praça das Três Culturas (Tlatelolco), matando cerca de 200 a 300 pessoas.

Durante as Olimpíadas, dois atletas americanos negros levantam os punhos para reivindicar o poder para os negros, na primeira manifestação política durante os Jogos Olímpicos.

No Uruguai, violentos confrontos levam o governo a decretar estado de sítio. Na Argentina, Colômbia e Venezuela, estudantes ocupam universidades, decretam greves, e se envolvem em intensos confrontos com policiais e forças do Exército.

Leia matéria sobre os protestos na América Latina

Fontes: "A Era dos Extremos", (Eric Hobsbawm), "Situacionista: teoria e prática da revolução" (Vários autores) "A Sociedade do Espetáculo", (Guy Debord) e France presse.

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