sábado, 19 de janeiro de 2008

Fé, família, dinheiro - revista Carta Capital

 
Edição 478

Fé, família, dinheiro

por Paolo Manzo

O apoio pessoal e financeiro de Kaká ao casal Hernandes desperta o interesse da Justiça. E a sogra, perplexa

Qual é seu grau de amizade e que relação tem com as pessoas acusadas? Os acusados costumam freqüentar sua casa na Itália e no Brasil? O senhor costuma freqüentar a casa deles, no Brasil e nos Estados Unidos? E ainda: a partir de 31 de julho de 2006, quando teve início a acusação por crime de lavagem de dinheiro, quantas vezes os acusados freqüentaram sua casa? O senhor tem conhecimento do fato que Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Hernandes tiveram prisão decretada? Durante o período de vigência do decreto de prisão, as duas pessoas citadas ficaram hospedadas em sua casa, na Itália ou no Brasil?

Eis as perguntas que o promotor da 1ª Vara Criminal de São Paulo, Marcelo Batlouni Mendroni, gostaria de fazer ao cidadão Ricardo Izecson Santos Leite, mais conhecido como Kaká, craque do Milan e da Seleção Brasileira, Bola de Ouro do jornal L'Equipe, eleito pela Fifa o melhor jogador de futebol do mundo em 2007. O pedido para interrogar Kaká foi encaminhada pelo promotor Mendroni à Procuradoria-Geral de Milão no dia 14 de setembro do ano passado. CartaCapital teve acesso ao documento. Até a quinta-feira 10, Mendroni ainda não havia recebido as respostas de Kaká.

Serão normais lentidões burocráticas? Não é possível saber. Certamente, após a publicação deste documento, alguém deverá tomar a iniciativa de fazer uma viagem até Milanello, centro esportivo onde treina o Milan, para fazer a Kaká as perguntas para as quais a 1ª Vara Criminal paulista está procurando inutilmente obter respostas há quatro meses.

Na Itália é inverno, a temperatura é gelada e, muitas vezes, Milanello amanhece envolto em neblina. Pode-se apostar, porém: as adversas condições meteorológicas dificilmente vão deter o interesse de jornalistas e fotógrafos.

Mas por que Mendroni quer tanto ouvir Kaká no caso de lavagem de dinheiro que envolve os bispos fundadores da Renascer? Kaká não se cansa de demonstrar em público sua fé. No pulso, carrega um bracelete de metal grafado com a palavra "Jesus" e uma fitinha de pano com as letras "OQJF", abreviação de "O Que Jesus Faria?" Na língua das chuteiras – é preciso olhar atentamente –, pode-se ler a frase mágica: "Deus é fiel". A cada gol, o meio-campista levanta as mãos em direção ao céu, gesto que virou moda entre os "atletas de Cristo". Na final do Mundial de Clubes da Fifa, disputada no Japão, exibiu uma camiseta com a inscrição "I belong to Jesus". Até a mensagem de seu celular traz um recado religioso: "No momento não posso atender. Obrigado. Deus te abençoe. Tchau".

Kaká, ou Riccardino, como é chamado afetuosamente pelos companheiros de clube, é também uma das figuras de destaque da Renascer. Já declarou que, quando se aposentar do futebol, pretende virar pastor, seguindo os passos dos Hernandes. Por enquanto, traduz o apoio à igreja com um polpudo dízimo, estimado em mais de 2 milhões de reais por ano.

Uma fidelidade à causa, por parte de um rapaz tão jovem, impressiona mesmo os mais fervorosos. Mas que também chamou a atenção do promotor. O dízimo é o alvo de outra bateria de perguntas enviadas por Mendroni: o senhor contribui com a Igreja do ponto de vista financeiro? Desde quando? Com dinheiro ou com outros bens? Quanto deposita por mês? E mais: quanto já depositou desde que começou a colaborar com eles – nos dê um total, ainda que aproximado –, e de que forma fez suas doações? O senhor tem conhecimento do destino que foi e é dado ao dinheiro que deposita?

Perguntas precisas, pontuais, que pressionam, as que a Justiça brasileira gostaria de fazer a Kaká porque o objetivo é justamente este: esclarecer a relação entre Estevam Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Hernandes, o "apóstolo" e a "bispa", e as operações financeiras da Renascer. Uma estreita rede de atividades econômicas que a partir de julho de 2006 acabou sob a lente da Magistratura de São Paulo porque, e é esta a acusação que acompanha o documento que solicita o interrogatório de Kaká, as "operações financeiras não teriam sido declaradas às autoridades brasileiras" e isso comportaria crimes como a "lavagem de dinheiro e a obtenção de atividades ilegais, seja por meio do engano da fé de outros, seja por uma série de fraudes".

Isto, ao menos, é o que se lê na requisição de interrogatório enviada a Milão. Kaká, ressalte-se, é considerado mais uma vítima-testemunha a ser ouvida do que um acusado, mas, certamente, sua fé cega nos dois bispos está lhe trazendo não poucas dores de cabeça. Mesmo porque o seu não é um dízimo qualquer, como ficou claro acima. Segundo uma reportagem de La Gazzetta dello Sport, o principal jornal esportivo da Itália, Kaká ganha 17 mil euros, cerca de 45 mil reais, por dia. Multiplicando por 365 dias ao ano, dá mais de 16 milhões de reais, sem contar as entradas provenientes dos prêmios-partida e dos patrocínios. É por essas contas que Kaká repassaria à Renascer mais de 2 milhões de reais ao ano. Uma quantia nada desprezível, mesmo para os recheados cofres da seita. Segundo as apurações de Mendroni, a Renascer desviou, durante anos, o dinheiro dos dízimos para o patrimônio pessoal do casal Hernandes, estimado em cerca de 130 milhões de reais.

As perguntas encaminhadas pela Justiça brasileira têm sido, até agora, o menor dos incômodos que a dedicação à Renascer tem causado ao Bola de Ouro. Ela também causa conflitos familiares. A opção religiosa do genro sempre foi malvista pela mãe de Caroline, mulher de Kaká, Rosangela Lyra, católica fervorosa, integrante da Renovação Carismática, movimento cujos cultos, ironicamente, se parecem muito com os neopentecostais, a começar pela cantoria epifânica e pelas missas que mais parecem shows.

Nem foi o bastante, aos olhos da sogra, o fato de o noivo ser jovem temente a Deus, capaz de chegar virgem ao matrimônio, pois "é assim que Jesus quer". Em uma recente entrevista à Vanity Fair italiana, Kaká soletra: "A Bíblia ensina que o verdadeiro amor se alcança somente por meio das núpcias, com a troca do sangue, aquele que a mulher perde juntamente com a virgindade".

O anúncio, para junho próximo, do nascimento do primogênito de Kaká e Caroline, seria suficiente para apaziguar as diferenças. Os imbróglios policiais e judiciais do casal Hernandes, pode-se dizer, dão um certo ar de triunfo à sogra na disputa religiosa familiar, apesar do desgosto que causa ao genro e à filha.

Na verdade, Rosangela, que profissionalmente dirige a grife Christian Dior no Brasil, nunca aceitou completamente a conversão de Caroline à Renascer. O casamento, em 2005, foi realizado por Sônia e Estevam em um templo da seita e não em uma das tradicionais igrejas católicas onde se enlaçam os quatrocentões, novos-ricos e aspirantes à alta sociedade paulistana.

"Já sofri muito por causa da conversão de Caroline e por isso hoje me agarro ao que nos une. Seria muito pior se tivesse casado com um homem de uma religião que não acredita em Jesus Cristo", resignou-se em público a sogra  às vésperas do casamento.

Desde a conversão da filha, não foram poucos os atritos entre ambas. Em uma das passagens por São Paulo, Caroline reagiu de modo ríspido ao ver uma imagem de Nossa Senhora no painel do automóvel da mãe. Exigiu que Rosangela retirasse a imagem e afirmou que, segundo as regras de sua nova religião, a virgem nada representava. E acrescentou: Nossa Senhora, inclusive, a deixava irritada. A reação de Caroline marcou profundamente a mãe, que, como todo católico fervoroso, acredita ser Nossa Senhora uma divindade quase tão importante quanto Cristo e o próprio Deus.

O fato de Kaká ter sido envolvido, mesmo de forma tangencial, no enrosco da Renascer reacendeu, em certa medida, o embate religioso familiar. Terão os desdobramentos da investigação poder para aprofundar as diferenças entre sogra e genro?

Voltemos, por enquanto, a Mendroni e, principalmente, aos problemas judiciários da Renascer. Por eles falam os fatos. Dia 9 de janeiro de 2007, Estevam, que toca saxofone, e Sônia, apreciadora de cirurgias plásticas, foram presos em Miami, acusados de entrar ilegalmente com dinheiro nos Estados Unidos. Pouco menos de 60 mil dólares, escondidos numa Bíblia, renderam, de imediato, sete meses de liberdade condicional sob rígido controle. A polícia da Flórida colocou no casal braceletes magnéticos para monitorá-los 24 horas por dia. Em 17 de agosto, foram condenados a dez meses de prisão – cinco em regime fechado, cinco em prisão domiciliar. A pena, determinou o juiz norte-americano Federico Moreno, será cumprida de forma alternada (primeiro ele, depois ela), para que os pais possam cuidar do filho, Gabriel. Recentemente, o "apóstolo" foi posto em liberdade. A ida da "bispa" para a penitenciária é questão de dias, ou horas.

Por certo, os dois recompõem as energias na confortável casa de Boca Raton, um dos locais mais exclusivos da Flórida, enquanto recebem o apoio de amigos e fiéis. Não há um só dia, relata o diário italiano Corriere della Sera, em que Kaká não telefone para demonstrar afeto e estima pelo casal.

A defesa aberta dos Hernandes feita pelo meia da Seleção inspira outra das perguntas de Mendroni: "O senhor se dirigiu à imprensa brasileira (primeira página da Folha de S.Paulo de 12 de setembro) para defender a Renascer. O senhor sabe de suas atividades e do que é acusada?"

Uma pergunta que parece uma bóia de salvação para o jogador e que é acompanhada por uma série de acusações que a 1ª Vara Criminal de São Paulo relaciona no documento enviado a Milão.

A investigação realizada por Mendroni aponta para a existência de "uma grande quantidade de empresas ligadas à Renascer por um esquema formado por um clã familiar que controla os investimentos e que, em pouquíssimo tempo, acumulou verdadeiras fortunas aproveitando da fé religiosa dos outros e realizando negócios ilegais".

Além disso, prossegue o promotor, observa-se "uma intensa relação comercial que circunda a Renascer" em atividades "bem pouco propensas a levar adiante funções sociais" e "comandadas por um núcleo muito pequeno de pessoas ligadas à direção da instituição religiosa".

Além de Estevam e Sônia, a denúncia envolve diretamente o filho mais velho do casal, Felipe Daniel, conhecido pelos fiéis como "bispo" Tide, e sua mulher, Fernanda. Os quatro investigados são descritos como "os verdadeiros proprietários das empresas" ligadas à seita. O texto prossegue: "Apesar das entradas excepcionais que recebem, possuem poucos bens em seu nome e uma grande quantidade de protestos".

Os Hernandes não são os únicos envolvidos. Entre os outros, o documento cita claramente Leonardo Abbud, Antonio Carlos Ayres Abbud e Ricardo Abbud, que teriam a função de laranjas, para simular a propriedade de algumas empresas.

Conforme a acusação, a ligação entre a Renascer e as empresas acima citadas é evidente a partir do momento em que muitas delas têm sede no mesmo endereço da igreja. No centro das atenções dos investigadores está o grande volume de dinheiro que circula entre as pessoas, físicas e jurídicas, "apesar de serem usadas atividades filantrópicas e sem fins lucrativos como cobertura". A conclusão da requisição de interrogar Kaká deixa pouco espaço a vôos pindáricos e talvez possa ajudá-lo a refletir.

Mendroni escreve: "Se constituiu assim a formação de uma organização criminosa dedicada à pratica de crimes como falsificação de documentos públicos e privados e outras fraudes como metodologias de colheita de fundos e crime reiterado de lavagem de dinheiro proveniente de atividades da mencionada organização. Tudo de forma continuada e estruturada".

Para prosseguir na investigação, o promotor solicita (através da Procuradoria de Milão) a Kaká todos os dados e documentos relativos aos fatos apurados e aos acusados, inclusive a entrega, o envio e a doação de valores, a qualquer título ou a qualquer uma das empresas ligadas à Renascer, como recibos de envio de dinheiro e transações bancárias do craque do Milan.

Eis os fatos, aos quais não podem deixar de se seguir as frases que recheiam a catequese da Renascer e a levaram a conquistar milhões de brasileiros. Frases que em um país dividido pelo contraste entre ricos e pobres sempre conseguem surtir efeito. "Seu filho se meteu em encrenca? Teu marido te deixou? Sofre por causa de uma doença? Una-se a nós e encontre a salvação", compõem alguns slogans da igreja.

Cesar Romero Jacob, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma das razões do sucesso dos pentecostais: "Enquanto a fé católica focaliza as necessidades do próximo, o pentecostalismo dá ênfase às necessidades de cada fiel e de sua família". Atualmente, os evangélicos representam cerca de 15% dos brasileiros, que pouco ou nada se questionam sobre o uso e a administração do dinheiro por parte de seus líderes religiosos. Ao contrário, os fiéis os defendem cegamente. Como fez Kaká, que na entrevista à Folha não pensou duas vezes antes de apoiar o casal Hernandes e entregar seu World Player à Renascer. Aviso aos torcedores: pode ser admirado no Templo de São Paulo, um dos 1,2 mil espalhados pelo País.

Fé e fidelidade, portanto, caminham juntas para quem, como Kaká, decidiu abraçar o mundo evangélico. Sua conversão ainda é contada de forma hagiográfica. Em 2000, aos 18 anos, caiu na piscina e sofreu grave lesão numa vértebra. Teria sido salvo graças às orações da mãe, que vislumbrou a eclosão de uma batalha espiritual. No final o Bem saiu vencedor. Dali para a Renascer o caminho teria sido breve. Kaká até hoje a percorreu a chutes na Leonor. Terão os questionamentos da Justiça brasileira e as resistências da sogra força para barrar a fé do mais bem-sucedido "atleta de Cristo"?

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