sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A subversão está no sangue

A subversão está no sangue

A subversão está no sangue

Por Braulia Ribeiro em 9 de dezembro de 2009
Como os revolucionários de esquerda ontem se transformaram nos reacionários de direita hoje.
Fui criada no sopé de uma favela belorizontina por uma família de idealistas. Meu pai e minha mãe se conheceram na Escola Guinard como alunos do mestre.  A paixão em comum que era a arte, depois  se transformou em muitas mais; os pobres, a esquerda política, a literatura, a imprensa e claro os sete filhos que geraram juntos.  Minha infância se pareceu com a da família descrita por Orígenes Lessa em "O Feijão e o Sonho", só que sem o feijão.  O Sonho e o Sonho viviam pelos ideais que acreditavam em plena subversão ao sistema.
Nossa vida nunca era igual. Meu pai escapou por pouco de ser preso e exilado pela ditadura, viu os jornais em que trabalhou serem submetidos à censura prévia e depois fechados e depredados pela repressão policial à imprensa,  seus amigos desaparecerem e adoeceu de desespero existencial. Minha mãe, excluída da carreira de pintora expressionista pelas demandas da maternidade, conseguiu ser mais prática e abrigava pobres em casa, escolarizava crianças da favela, além de escrever e pintar e cuidar que meu pai se mantivesse próximo da realidade.
Aos 16 anos tive um encontro emocional e sobrenatural com a realidade do evangelho. Este encontro me conduziu a terríveis conflitos existenciais. A sementinha nova da fé parecia não resistir às investidas cruéis da razão. Era frágil demais, des-argumentada, des-científica, reacionária demais. Aos 17 no entanto, encontrei um grupo que vivia uma utopia próxima da que meu pai e mãe haviam sonhado, só que movidos pela fé cristã. Foi aí que minha alma se encontrou com minha razão e a fé pode se tornar concreta pra mim.  Desde então vivi na JOCUM ou pelo menos pensei viver bem perto do radicalismo socialista de meus pais.  Anos demais quem sabe, alguns extremamente distantes de qualquer realidade, alienados demais pela suposta utopia da sociedade alternativa, outros anos oprimidos pela realidade inexorável do sistema.
Aprendi  nesta jornada que o verdadeiro cristianismo é tão subversivo quanto qualquer revolução política.  Meus pais queriam mudança. Não se conformavam com os problemas e os erros de seus pais,  não se con queriam uma sociedade mais justa, queriam liberdade e igualdade para todos.
Publicado originalmente em www.eclesia.com.br

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