quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Saramago vai para o céu?

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::.Saramago vai para o céu?
por Jonathan Simões Freitas

-Deixe eu lhe fazer uma pergunta delicada: Saramago vai pro céu?
Assustei-me diante de tão inesperada dúvida; pedi um tempo até que acabássemos de nos servir e nos assentássemos à mesa. Sabia que minha resposta nos conduziria a mais um longo almoço.

Pensei no que deveria responder. Devemos convir que não se trata de uma pergunta qualquer. Quem a elaborou também não é um questionador qualquer; trata-se de alguém que foi aprovado em primeiro lugar geral no vestibular da UFMG. E, para complicar a situação, Saramago definitivamente não é uma pessoa qualquer.
Pensei, orei, pensei de novo e disse o que considerei ser a resposta mais sensata que poderia dar em tão curto intervalo de tempo:

- Não sei.

Ele me olhou em silêncio, como quem espera algo mais. Então completei:

- Mas posso lhe dizer o que a Bíblia afirma a esse respeito.

Seu olhar atento sinalizava para que eu seguisse em frente, e foi o que fiz. Apresentei-lhe brevemente o plano divino da salvação, ressaltando o fato de que, segundo as Escrituras, somente aqueles que confessam Jesus Cristo como o próprio Filho de Deus que se fez homem, recebendo-o como único e suficiente Salvador e Senhor poderão ser salvos e ir para o céu.

Ao terminar minha exposição, seguiu-se um momento de silêncio respeitoso. Mas os pensamentos que lhe passavam pela mente não lhe permitiram se contentar com minha resposta. Com sincera curiosidade e honesta dúvida, deu prosseguimento à conversa:

- Mas você há de concordar comigo que Saramago é um homem que tem dado uma contribuição imensurável para a humanidade. Seus escritos podem mudar completamente a perspectiva de uma pessoa em relação à vida, munindo-a de pensamentos e idéias que podem alterar por completo sua forma de viver, aliviando, possivelmente, seus sofrimentos e, talvez, ajudando-a a se tornar um agente ativo de transformação social. Como um homem assim poderá receber como recompensa por todas estas boas obras a condenação eterna? Como alguém que claramente tem procurado contribuir para sanar as mazelas humanas pode ser declarado eternamente separado de Deus apenas por não reconhecer em Jesus o Salvador?

Após tão elaborada e importante questão levantada, retribui-lhe o momento de respeitoso silêncio. Percebi que adentrar na realidade do meu ouvinte, desconstruindo seu paradigma de autojustificação e apresentando-lhe a graça seria uma tarefa mais árdua do que eu imaginara. Mas a sinceridade de seus questionamentos mostrava-me um coração sedento pela verdade. E eu conhecia a água viva capaz de saciá-lo. Porém, como fazê-lo?

Essa dúvida ainda percorria meus pensamentos quando me lembrei de uma analogia perfeita para explicitar-lhe a verdade bíblica de uma forma plenamente compreensível e aceitável. Arrisquei:

- Imagine dois homens diante de um tribunal, ambos réus em um julgamento. Um deles é conhecido como o maior criminoso de toda a região; roubou, matou, sonegou, contrabandeou e fez questão de descumprir todos os códigos legais existentes. O outro é a pessoa mais engajada que a cidade já viu; fundou creches, escolas, casas de recuperação, liderou igrejas, foi um bom pai, marido, filho e amigo, mas descobriu-se, certa vez, que ele havia desviado dinheiro público por interesses pessoais.
Ambos transgrediram a lei. Um a transgrediu por completo, enquanto o outro falhou em apenas um de seus pontos, mas ambos a transgrediram e, portanto, precisavam ser julgados para que a justiça se cumprisse . O juiz não pode deixar de condenar o segundo réu apenas pelo fato de este ter realizado muitas boas obras, pois suas inúmeras ações louváveis não o isentam do fato de haver transgredido a lei.

Se não o condenar, o juiz será injusto, pois deixará de punir o erro. De fato, as sentenças proferidas a cada réu podem ser diferentes, mas, em nenhum dos dois casos, podem ser omitidas. Decide-se, então, que ambos serão condenados.

Imagine agora que um homem inocente adentra o recinto e se oferece ao juiz para que as condenações que deveriam recair sobre os réus recaiam sobre ele, a fim de que a liberdade que ele desfruta seja transferida para os criminosos. O juiz requisita a consulta ao passado de tal homem e constata, de fato, sua total inocência. Diante desta situação, o juiz aprova a substituição proposta, desde que os réus também a aceitem.

O primeiro condenado, diante do amor tão imerecido demonstrado por aquele desconhecido, começa a chorar, profundamente arrependido pelos seus feitos e aceita, com gratidão inexprimível, a oferta daquele homem. Promete-lhe com os lábios e decide em seu coração que, saindo dali, dedicará sua vida a conhecer mais a seu respeito e a viver como ele viveria.

O segundo condenado, no entanto, reluta consigo mesmo para aceitar tal oferta. Afinal, ele não havia se esforçado tanto durante toda sua vida para ser lembrado como alguém que foi salvo por causa do favor de um estranho. Não! Ele não havia investido toda sua inteligência e toda sua capacidade para, no fim da vida, igualar-se ao principal criminoso de sua região. Isso seria ferir seu orgulho e seu ego. Ele não podia aceitar a substituição proposta e, por isso, nega a oferta.

O juiz, respeitando a decisão de cada um, dá-lhes, então, a sentença devida: ao primeiro réu, a liberdade; ao segundo, a prisão; e ao homem inocente, a morte substitutiva.

Quando terminei a história, meu amigo levou o garfo à boca e abaixou os olhos. Acho que ele havia sido respondido.

Agora, leitor, diante de tal história, deixe eu lhe fazer uma pergunta delicada:

- Você vai pro céu?
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José Saramago é um escritor português dos mais respeitados no cenário mundial atualmente. Já recebeu o prêmio Nobel de Literatura por seu romance "Levantar do Chão". Domingo passado (30/10/05), esteve no Palácio das Artes para fazer, aos 83 anos, o lançamento mundial de seu mais livro: "Intermitências da Morte". Neste, aborda como seria a vida se a morte deixasse de matar, transmitindo a mensagem de que, para se viver, é necessário morrer. Seus escritos subentendem uma posição ateísta, sendo que, apesar de criticar duramente a religiosidade hipócrita e cega, seus trabalhos sempre giram em torno dos eixos homem, filosofia e espiritualidade.
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Jonathan Freitas cursa Engenharia de Produção na UFMG, onde lidera os encontros "Vida com propósitos". É líder das células na Mocidade Getsêmani, e do Departamento de Apoio aos Universitários do Igreja Batista Getsêmani
jsfjesusfreak@yahoo.com.br.
Postado em 4/11/2005 por Jonathan Freitas

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