quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

História do cinema cristão

29 05 2007
por Maurício Zágari Tupinambá - http://cinegospel.wordpress.com

Quando o cinema foi inventado, há 111 anos, o Cristianismo já tinha séculos de existência. Surgida na sociedade ocidental cristianizada, aquela que ganharia status de sétima arte recebeu a influência de um mundo que cria na Bíblia. Naturalmente, muito do que produziu teve a ver com a fé. De lá para cá, de arte o cinema virou indústria e se secularizou. Mas o cinema cristão cresce cada vez mais, disseminando seus valores e disputando sua fatia do mercado. A data oficial do nascimento do cinema é 22 de março de 1895, quando os irmãos Lumière fizeram a primeira exibição de um filme, num café de Paris. Mas bem antes, em 1680, o padre católico Atanasius Kircher ajudava a popularizar a lanterna mágica, equipamento à luz de vela que projetava slides numa parede escura e é considerado precursor dos primeiros projetores. No início do século 19, missionários como David Livingston usaram a lanterna mágica para apresentar o Evangelho na África.

Chegou o cinema e, entre seus primeiros filmes, muitos abordavam a morte e a ressurreição de Jesus. Entre 1897 e 1898, foram pelo menos quatro produções sobre o tema, incluindo uma do inventor Thomas Edison, "The Passion Play of Oberammergau". Em 1907, o produtor Adolph Zukor lançou o primeiro longa-metragem sobre a vida de Cristo seguido, em 1912, de "From the Manger to the Cross", sobre o mesmo assunto. Dali até "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, muito ainda se filmaria sobre o Cristianismo, no mercado secular ou no segmentado.

Na Inglaterra, o aristocrata metodista J. Arthur Rank decidiu entrar no ramo como uma forma de propagar sua fé. Mal-sucedido em realizar filmes cristãos, ajudou a estabelecer o estúdio Pinewood, onde até hoje são rodadas as aventuras de 007. Mas fracassos como esse não impediram que, ao final da década de 1930, dois empresários cristãos americanos separadamente decidissem realizar filmes que honrassem Jesus. Charles Baptista produziu sua primeira história em 1939 e, três anos depois, inaugurou a empresa Baptista Film Mission, que só trabalhava com profissionais evangélicos. Já o pastor episcopal James Frederich mudou-se de Ohio para a Califórnia em 1938, na esperança de usar técnicos e atores de Hollywood para fazer filmes cristãos. Em 1939, sua Catedral Pictures produziu o marco "The Great Commandment" para mostrar uma visão bíblica fiel da crucificação. A censura americana proibiu que Jesus fosse retratado, por isso Friedrich decidiu usar a câmera como se fosse o ponto de vista do Senhor. O pastor iniciava cada filmagem com uma oração e tornou-se conhecido como "o evangelista de Hollywood".

Os anos 1940 marcaram a proliferação de empresas cinematográficas com foco evangélico. Foi inaugurada nos EUA a primeira sala de exibição onde só eram apresentados filmes cristãos, na cidade de Ambler. E, em 1949, o empresário e editor Ken Anderson decidiu montar um pequeno estúdio só para fazer filmes do gênero, que se tornaria uma grande distribuidora, a Gospel Films.

A produção cinematográfica gerou também frutos indiretos para o Evangelho. Em 1948, o produtor Bob Pierce viajou à China para rodar "China Challenge". Ficou tão tocado pela miséria na Ásia que decidiu criar o ministério de ajuda humanitária Visão Mundial, que atua até hoje e usa filmes para promover missões. Estava criada uma parceria que se tornaria clássica no trabalho evangelístico, entre ministérios cristãos e o cinema. O Gospel for Asia, por exemplo, propaga hoje sua mensagem com o longa-metragem "Man of Mercy", e o ministério Mars Hill, com "The Hope".

Ao ver o potencial do mercado cinematográfico, um nome que hoje é bem conhecido nosso decidiu investir em cinema. Foi assim que, em 1951, a Associação Evangelística Billy Graham fundou uma subsidiária, a World Wide Pictures, para produzir e distribuir filmes cristãos, entre eles "Mr. Texas" e "Something to Sing About".

Até então, a distribuição se restringia ao mercado americano. Mas, a partir dos anos 1960, Ken Anderson deixou a Gospel Films e lançou a Ken Anderson Film, cujo objetivo principal era alcançar o público internacional pela mídia cristã, e lançou sete títulos rodados na África. Entre seus maiores sucessos está "O Peregrino", de 1979, estrelado pelo futuro vencedor do Oscar e então desconhecido Liam Neeson (de "A Lista de Schindler").

Ao longo dos anos 1950 e 1960, a produção cinematográfica cristã cresceu em volume e profissionalismo, passando a ganhar espaço publicitário em grandes revistas e - algo bem mais precioso - vidas para Jesus. Segundo reportagem da revista Christianity Today, de 14 de outubro de 1966, 2 milhões de pessoas assistiram a "The Restless Ones", sobre um repórter que investiga um pastor evangélico, e 120 mil registraram sua conversão após ter visto o filme.

Esse sucesso estimulou o surgimento de novos estúdios, produtoras e distribuidoras dedicados ao mercado evangélico, como a Gateway Films, que lançou a versão cinematográfica do bestseller "A cruz e o punhal", em 1972, estrelada por Pat Boone (no papel do pastor David Wilkerson) e Erik Strada (da série de TV "CHIPs").

Em 1979, um dos mais importantes filmes evangelísticos do mundo estreou nos EUA: o "Jesus Film", baseado no Evangelho de Lucas, que ainda hoje é exibido por todos os continentes em trabalhos de evangelização. Ganhou até um ministério próprio (ver www.jesusfilm.org). A produção já conta com dublagem em 963 idiomas e dialetos diferentes e teve mais de 6 bilhões de exibições - o que o torna o filme mais visto da História. Como resultado, os organizadores do "The Jesus Film Project" afirmam que 201 milhões de pessoas se converteram ao Cristianismo após assistirem ao longa-metragem.

A produção evangélica começou a dar provas de força: títulos evangelísticos passaram a ser estrelados por astros conhecidos em Hollywood, como em "Dakota" (1988), com Lou Diamond Philips (de "Coragem sob Fogo"), e "Código Ômega" (1999), com Michael York (de "A Ilha do Dr. Moreau") e Casper Van Dien (de "Tropas Estelares"). Outra prova é o fenômeno "Deixados para trás". Lançado em 2000, o filme saiu direto em vídeo, mas o sucesso foi tão grande - com mais de 3 milhões de DVDs vendidos só nos EUA - que no ano seguinte o longa-metragem sobre o arrebatamento foi para os cinemas, na contramão do que ocorre normalmente, e gerou duas seqüências.

Com esse fortalecimento, os profissionais de cinema foram formando associações, como a Christian Film Distributors Association (CFDA), de distribuidores. A CFDA criou, em 1974, a primeira premiação do gênero, a Crown Awards. O espaço conquistado levou também ao surgimento de festivais de cinema evangélicos. Em 1993, ocorreu a primeira edição do Merrimack Valley Christian Film Festival, que na Páscoa arrasta milhares de pessoas aos cinemas da cidade de Salem para assistir a filmes gospel. Seu idealizador, Tom Saab, fundou a Christian Film Festivals of America, que organiza eventos similares pelos EUA.

No ano seguinte, foi criado o primeiro site de Internet voltado para filmes cristãos, o portal Gospelcom.net. Estava iniciada a entrada do cinema gospel na modernidade do mundo virtual.

E o futuro? Bem, as mudanças tecnológicas estão alterando a indústria de filmes cristãos. A chegada dos DVDs expandiu muito esse mercado, levando os títulos cada vez mais para fora de seu quase único realizador, os EUA.

O advento do cinema digital (que substitui as caríssimas películas em 35 mm pelo baratíssimo vídeo digital) facilita muito a produção. Em 2001, foi lançado o primeiro longa-metragem cristão rodado totalmente em sistema digital, "Escape from Hell". Prova de que, hoje, basta ter uma câmera digital na mão, uma idéia na cabeça e Jesus no coração para virar um cineasta evangélico. Alguém se habilita a fazer história?

(Publicado originalmente na revista ENFOQUE GOSPEL de novembro de 2006)

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