sábado, 19 de janeiro de 2008

Carta Capital dá capa sem ouvir Kaká e Renascer


CartaCapital dá capa sem ouvir Kaká e Renascer

Carla Soares Martin

A reportagem da capa CartaCapital desta semana, "Fé, Família e Dinheiro", foi escrita sem buscar ouvir o jogador Kaká, sua sogra, Rosangela Lyra, e a Igreja Apostólica Renascer em Cristo.

Segundo a revista, no entanto, todas as informações da matéria foram checadas e apuradas com outras fontes. "Se você tivesse um documento importante e oficial como a petição de um promotor para investigar as relações de Kaká com a Renascer, você entrevistaria antes?", justificou o autor da matéria, o jornalista Paolo Manzo.

A edição 478 publica um documento do promotor Marcelo Mendroni, do Ministério Público de São Paulo, pedindo informações a Kaká sobre suas relações com o casal Hernandez – Estevam Hernandes Filho e Sonia Haddad Moraes Hernandes –, responsáveis pela Igreja Renascer. Ambos estão cumprindo pena de dez meses de prisão nos Estados Unidos por entrarem irregularmente com US$ 56 mil no país. A reportagem informa, ainda, que Kaká daria em torno de R$ 2 milhões para a Igreja, em forma de dízimo, e que a sogra do jogador, Rosangela Lyra, via com ressalvas a conversão da filha Caroline à Renascer.

CartaCapital valeu-se de informações do promotor Marcelo Mendroni e outras de domínio público, apuradas pela Folha de S.Paulo e pelo jornal italiano La Gazetta dello Sport. No site da CartaCapital, o repórter diz que seu único engano foi atribuir o cargo de juiz ao promotor Marcelo Mendroni. "Tudo que escrevi é autêntico", disse.

Em entrevista ao Comunique-se, o repórter explica sua posição: "Jamais falei na publicação que entrevistei Rosangela Lyra, Kaká ou membros da Renascer. Eu não tenho que entrevistar Kaká. Quem quer fazê-lo é a Promotoria." Paolo Manzo acrescenta que a matéria deveria sucitar um debate sobre as formas de se fazer jornalismo. "Tinha um documento forte nas mãos e me preocupei apenas em publicar essa informação", disse.

Sobre as informações da matéria, um dos principais pontos de questionamento é a informação de que Kaká daria R$ 2 milhões à Renascer. Esse dado, no entanto, é apenas cogitado, não confirmado. "Segundo uma reportagem de La Gazzetta dello Sport, o principal jornal esportivo da Itália, Kaká ganha 17 mil euros, cerca de 45 mil reais, por dia. Multiplicando por 365 dias ao ano, dá mais de 16 milhões de reais, sem contar as entradas provenientes dos prêmios-partida e dos patrocínios. É por essas contas que Kaká repassaria à Renascer mais de 2 milhões de reais ao ano", escreve Manzo.

A respeito das informações da sogra Rosangela Lyra, católica, que estaria em dúvidas quanto à conversão da filha à Renascer, o repórter utilizou declarações dela na ocasião do casamento de Caroline com Kaká, em 23/12/05, e uma desavença que recentemente teria ocorrido quando a filha teria pedido à mãe para retirar a imagem de Nossa Senhora do carro. 

Sobre a Renascer, o repórter informou as acusações do promotor Mendroni, mas não se preocupou em procurar a igreja.

Kaká
O assessor do Kaká, Diogo Kotcho, contesta que o jogador não foi procurado para comentar se dava mesmo os R$ 2 milhões para a Igreja, nem se o número 1 do mundo teria recebido o pedido de esclarecimentos do promotor Mendroni.

Kotcho escreveu uma declaração ao Comunique-se informando com detalhes a sua posição sobre a apuração da CartaCapital

Renascer
A Igreja Renascer, através de sua assessoria, escreveu uma
nota à imprensa informando que vai processar o promotor, a publicação e o jornalista pela matéria. Apesar de escrever que a reportagem está "repleta de erros e suposições", não desmente os fatos. Concentra-se nas acusações contra o promotor, inclusive por ter supostamente usado o jornalista para se promover.

A assessoria da Renascer afirma ainda não ter sido procurada para falar sobre as apurações de Mendroni, do suposto desvio de dinheiro.

Sogra de Kaká
Rosangela Lyra mandou um
comunicado à revista, afirmando estar "surpresa" por não ter dado declarações e, ainda sim, a CartaCapital ter afirmado que ela tinha dificuldades de aceitar a conversão da filha. "Nunca dei nenhuma entrevista ou falei com o jornalista que assina a matéria nem com ninguém da revista Carta Capital. Uma das citações inclusive está colocada entre aspas como se eu tivesse dado a declaração", afirmou, "perplexa", Rosangela.

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